Domingo, 25 de Maio de 2008

RECORDANDO

A vaidade é um dos pecados constantes  do cardápio de todas as religiões. Há a vaidade inocente, a exibicionista e a que procura ostensivamente ofender o próximo. Todas elas, (as formas de vaidade) como foi dito, são condenadas pelas várias religiões. Mas é pensamento comum, que nem todas as vaidades deveriam ser condenadas.

Vejamos então: 1º- a vaidade natural da mulher bonita, que só por seu prazer exibe essa beleza, não deveria ser condenada. 2º- A  todo aquele ou aquela, que (qual pavão exibindo as penas lustrosas) se pavoneia ante os seus semelhantes com a finalidade de se fazer notado,, ao invés de sanção social ou religiosa, deveria ser concedido o dom da inteligência . Finalmente há uma vaidade que por todos deve ser acarinhada;  refiro-me à vaidade natural das crianças e dos animais.

Para as crianças, a vaidade é quase sempre uma forma de exteriorização do muito carinho que recebem, sendo quase certo, que criança que não recebe carinho não exterioriza vaidade.

Quanto à vaidade dos animais, ela é a exteriorização de estados hormonais caracteristicos de um estado físico em mutação; exemplo: cio, reconhecimento de ser da mesma espécie ou estado de liberdade inesperada.

Pois bem, é na lembrança dos gestos de um animal que hoje me proponho secar-vos a paciência.

Este animal existiu há mais de 50 anos (vejam como já vivi tantos anos) e fazia as delícias da pequenada da época. Como? eu explico: havia nessa altura uma personagem que quase diariamente se deslocava a Almeirim para vender carvão. Era a Rapileua.,,, Os da minha idade e os mais novos um pouco, certamente se lembrarão da "mula ruça" que engatada à carroça  carregada de sacos de carvão, se deslocava a Almeirim, tendo bem no cimo da carrada, a figura desempenada da Jesuína Rapileua . Pois bem!  O saudoso João Chaparreiro descreveu "in o Almeirinense" que essa mula cinzenta lhe fazia lembrar as actuais "top models" a desfilar na passerele. E tinha razão o saudoso João! Na verdade,  por razão da carga se situar incidentemente na parte de trás da carroça,  a dita mula fazia esforços tremendos para  fixar as suas patas no chão, o que lhe dava um andar semelhante às nossa actuais misses de passerele. ou seja:  jingando de um lado ao outro dos varais os seus quartos traseiros imitavam na perfeição  o requebro das ancas magras das actiuais misses de passerele, a quem, por analogia, também se chama cabides com pernas.

Voltando à nossa personagem central, ou seja, a mula da Rapuleua, teremos que descrever uma caracteristica  excepcional do animal ! É que, para além de todo aquele bailado de ancas já atrás referido o dito animal era possuidor de uma memória incrível. Vejamos porquê: A Jesuína Rapileua era mulher de linguagem desbragada e dona de uma simpatia contagiante, mas quando lhe faziam aquecer os azeites a coisa dava para o torto e a sua linguagem atingia vocábulos que o bom senso mandam não reproduzir aqui. Ora, os ou as clientes da Rapileua eram as senhoras tidas como senhoras finas de Almeirim,  que lhe compravam o carvão para o grelhador e o ferro de engomar (na altura eram raros os ferros de engomar eletricos) e, em vez das criadas eram elas próprias que lhe compravam o carvão só para ouvirem aquele palavreado livre e desbragado, mas, sem maldade. Junte-se a tudo isto o facto de a Rapileua ter a necessidade de molhar frequentemente a garganta /(talvés devido ao pó do carvão) com um bom branco que, na altura se encontrava em todo o lado levando  a que,  por volta do meio dia já com a carga quase vendida, ela se sentasse no fundo da carroça e a partir dali era a mula que comandava o resto da volta da venda e o regresso a casa. Esta cena era quase diária e,  a mula obedecendo a uma rotina de muitos anos, por volta do meio dia parava em frente à taberna do Zé Carapinha ,e o taberneiro já conhecedor das necessidades da cliente lá saía com mais uma litrada de bom branco e uma posta de bacalhau salgado para fazer pé. Esta era a hora aguardada pelos brincalhões para dizerem à Rapileua que devia vestir umas cuecas à mula visto que era uma indecência o animal andar ali com as vergonhas à mostra;

 este era o rastilho para que todo o chorrilho de palavrões saltasse da boca dela e alto e bom som apelidasse o autor ou autores da graça de cabrões e filhos da ..........não esquecendo outros adjectivos que o benso manda que não descreva, contudo as respectivas filhas e mulheres também levavam pela mesma medida e até quem estivesse nas redondezas independentemente de ser homem ou mulher, senhora fina ou senhora menos fina, todas não passavam de uns coiros que talvés nem cuecas usavam. Claro que isto era o gáudio da rapaziada e de algumas senhoritas que propositadamente passvam aquela hora para presenciar o espectáculo. Mas, um episódio guardo ainda bem vivo na lembrança: como disse, a partir daquela altura, era a mula quem comandava os destinos da Rapileua e o retorno às Fazendas. Se no início da venda ela seguia desempenada sentada no cimo da carrada do carvão, pelos motivos já descritos, quando terminava a venda, já viajava sentada no lastro da carroça pois o equilibrio não seria o melhor. Pois bem, no retorno, a dita mula fazia uma escala em todas as tabernas começando no Zé Bocage e terminando no  Zé da Júlia sem esquecer o Toino da Cunha. A partir daqui, a Rapileua desatava a dormir e só acordava na porta da taberna da Brasileira (hoje propriedade do Sr,Vito "Italiano") onde a fiel amiga mula, sem se esquecer fazia mais uma paragem. Completada a emborcadura de mais um bom branco ; note-se que em todas,  ela era servida sem se desmontar, ou seja: em su sitio. Mas o episódio de que falava ocorreu depois da ultima paragem, ou seja: entre a taberna da Brasileira e as Fazendas: num desses dias gloriosos de Inverno, o frio era tanto, que a Rapileua  vinha a pé ao lado da mula e, descortinando ao longe a patrulha da Guarda Republicana previu que a iam incomodar com os documentos da carroça (coisa que ela não tinha). Então, num gesto de esperteza desengatou a mula e prendeu-a na parte trazeira da carroça colocando-se ela no meio dos varais como se da mula se tratasse. Ao cruzar com a patrulha da Guarda foi mandada parar e, quando lhe perguntaram pelos documentos ela respondeu: isso é com a patroa que vem ali atrás; claro que eles só puderam desatar a rir,  não a multaram nem a multariam de qualquer modo, pois o que teriam de ouvir de cada vez que se cruzassem com ela depois da venda não justificaria o esforço.

Nota: Estas personagens  a que hoje se chamam cromos, têm desaparecido paulatinamente e a sociedade fica sem dúvida mais pobre pois a alegria espontânea que emanava dos seus gestos ou palavras é irrepetivel.

publicado por etario às 23:49
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