Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

HISTÓRIAS SIMPLES DA GENTE SIMPLES CÁ DO MEU BURGO

A história que me proponho contar-vos é um misto de realidade e ficção; sem dúvida, muito mais realidade que ficção. Dado que a versão original já não poderá ser confirmada pelos protagonistas, pois já não  pertencem ao número dos que ainda por cá mourejam, irei, na medida do meu conhecimento pessoal acerca dos personagens da história tentar reproduzir a dita o mais fielmente possivel. O essencial da história será mantido, o relato situado na época do acontecimento e por razões óbvias, (salvaguarda de susceptibilidades familiares) os nomes  serão alterados.

Como poderão analizar, os termos desbragados da linguagem são um retrato do modo de falar simples e claro da época.

Então lá vai!

Muito antes da passagem das fazendas a freguesia, a nossa terra era um conjunto de bairros dispersos, que devido à sua baixa densidade populacional se chamavam cantos; havia assim o canto negro, o canto do Sporting, o canto do Japão o canto da Baixa, o canto dos Vitais etc.

As estradas eram práticamente inexistentes sendo os caminhos um mar de areia ou pedras no Verão e um mar de água na altura das enxurradas; caminhos havia,  que durante o Inverno estavam permanentemente alagados impossibilitando por isso o acesso às propriedades e as comunicações por via normal da época, ou seja: de carroça. Foi numa dessas épocas de Inverno que um pai preocupado com a educação do seu filho varão e mais velho da prole, sentenciou para a mulher Maria! "Tás óvir, o rapá vai mais é pá escola, pra vere sele na é um bruto assim cmó pai e ó menos sempre aprende a ler a escruver e a cuntar. Ficou radiante a ti Maria, que era mulher já dada aos conhecimentos e, cuja pena maior, era não ter podido aprender a ler e a escrever. Ficou então assente naquele serão passado ao canto, (local onde se fazia os cozinhados com lume no chão) que o Manel iria pá escola apesar de já ter doze anos e ser um matulão com físico de homem jovem.

Numa manhã de chuva intensa, o Manel não queria ir à escola, mas a ti Maria, que havia jurado que o seu Manel havia de ser o orgulho lá da casa e do Canto insistiu a toque de chapada e lá o correu em direcção à escola. Ao final da jornada escolar,  quando o Manel chegou a casa(e porque lhe tinha ficado a pesar a consciência de ter batido ao rapá) a ti Maria preguntou:Manel, há filho, então molhaste-te munto? Respondeu o rapá: atão na havia de molhar; insiste a ti Maria; atão e o qué que disse a Senhora (leia-se professora)? Responde o Manel:a Senhora disse; hé rapaz como tú estás todo molhado, e eu disse à Senhora que estava todo mulhado até aos colhões.

Perante esta tirada do Manel, a ti Maria rompeu num pranto e começou a desancar mais uma vez no Manel dizendo que ele era um mal inducado e um malandro, se aquilo era conversa que se dissesse à Senhora, e que agora, por vias disso, ela já não o passava de classe e que assim continuaria a ser um bruto como o pai, etc, etc,. Perante tal alarido, o ti João, assim se chamava o chefe do clã, aproximou-se muito lentamente (deslocava-se com o auxílio de duas muletas)  do local da discussão e preguntou? Atão qué que foi pra haver tanto barulho! A ti Maria lavada em lágrimas lá contou ao ti João as diatribes do Mnel e sentenciou de imediato que ele, ti João, tinha de ir pedir desculpa à senhora. Foi de imediato aparelhado o burro (meio de transporte utilizado plo ti João para alguma deslocação mais longa) e lá partiu ele pra ir pedir desculpa.

O diálogo entre o ti João (que falava como quem soluçava) e a Senhora foi mais ou menos assim! hò mnha Senhora, eu vanho aqui pra pedir desculpa pa quele malandro que na tinha nada de vir cum estas cunversas pá Senhora e agora se calhar a Senhora nim já o passa de classe nim nada; a Senhora benevolentemente respondeu: deixe lá snr João não se preocupe que eu não levei a mal a conversa do rapaz, além de que temos de dar um desconto porque são crianças. Aí é que o ti João afinou , pois ele tinha muito orgulho no enorme cabedal (corpo)que o filho já tinha e estava ali a professora a chamar-lhe criança; Então o ti João não se conteve e disse: criança? Se a Senhora visse bem aquele bocado de picha co rapá tem até se admirava.

Feliz por ter resolvido o assunto da passagem de classe do rapá, o ti João lá regressou a casa, mas não sem ter emborcado um copo em cada tasca que ficava de caminho, e que, o burro qual autómato já conhecia lindamente, não sendo necessário o ti João mandá-lo parar na entrada.

Chegado a casa, e feliz pela missão cumprida, logo foi assoberbado pla ti Maria que estava desejosa de saber como é que tinha corrido a coisa, e vai daí, preguntou! Hó João atão pediste desculpa à Senhora? O ti João impante de orgulho lá explicou à aflita Maria que estava tudo resolvido e que ficasse descansada. Mas a dita Maria que conhecia bem a peça que era o sê home, não descansou e pediu que ele repetisse o diálogo que tinha tido com a Professora. Então o ti João lá contou tudo e até disse que a Senhora tinha pensado co rapá era uma criança e ele disse logo, que se ela visse o bocado de picha que ele tinha, ela até se admirava mas, que se tinha esquecido de dizer co rapá já pintava (leia-se estava na puberdade). A ti Maria desta vez ía desmaiando, e só não deu o mesmo tratamento ao ti João que tinha dado ao filho por uma questão de respeito e medo, porque o ti João, apesar de desvalido das pernas na era pera doce.

Perante tanta sucessão de asneiras a ti Maria agora já quase com a certeza que a Professora na ía passar o sê Manel de classe, em desespero de causa teve uma ideia luminosa; ela é que ía salvar a situação: e se bem o pensou melhor o fez: Foi à galinheira escolheu uma das mais gordas galinhas e em paço rasgado lá arrancou em direcção à escola com a intenção de oferecer a galinha à Senhora, e assim acalmar a má imagem deixada pelo filho e pelo marido.

E foi ofegante que chegou à escola e desabafou prá Senhora! Hó minha senhora eu venho aqui pra pedir desculpa plo malandro do rapá e plo malandro do pai que veio prá qui só com cunversas de merda e atão a Senhora fique com esta galinha que até tava gordada pá gente comer no Natal, mais por favor passe o rapá de classe. A professora deitando um olho guloso à galinha lá tranquilizou a ti Maria dizendo que ficasse descansada porque desculpava tudo na medida em que um era criança e o Pai já era velho; ora a ti Maria quando ouviu chamar velho ao João na se conteve e disse logo à Senhora! Velho? Ainda esta noite me deu duas f das.

Da reacção da professora desconheço as consequências, mas sei que o Manel não passou efectivamente da primeira classe, creio que não foi por má vontade da professora mas tão somente, porque entretanto chegou a Primavera e o Manel teve que ir desgastar o cabedal a dar água à cura para as vinhas dos campos de Almeirim.

Era assim, a gente simples e boa, cá do meu burgo

ETA

publicado por etario às 23:10
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