Domingo, 23 de Dezembro de 2007

O CANTO DO JAPÃO

Já desde o tempo em que se chamava Charneca, Fazendas de Almeirim era um  povoado  formado pelos seus cantos. Cantos, são ainda hoje, os nomes que damos aos aglomerados de habitações que se foram formando em torno de um núcleo ou polo de interesse estritamente localizado. Esse polo de interesse era por regra, a taberna e a mercearia que tinham também anexo a barbearia. O barbeiro funcionava regra geral, ao lado da taberna, sendo a ocupação do espaço  utilizado a título gratuito, ou seja: o consumo na taberna efectuado pelos clientes do barbeiro compensariam a gratuitidade do espaço. E era na realidade assim, visto que, por norma, os homens só ao fim de semana mandavam rapar a barba, e o tempo de espera era ocupado a emborcar "copos de bom branco", o que, como é bom de ver, sem o barbeiro por perto, a coisa não funcionava. Recordo ainda, que nalguns casos, a navalha do barbeiro era um misto de lâmina e de esfregão, pois alguns clientes aproveitavam para realizar a operação "dois em um", ou seja: a navalha que cortava a barba também descolava o pó e a sujidade acumulada ao longo da semana. E era nesta paz dos anjos que os Cantos (hoje alguns já são bairros) iam vivendo.Salvo umas desordens motivadas pelo longo tempo de espera no barbeiro, que é como quem diz, excesso de copos, que sempre traziam à baila umas velhas questões de estremas das propriedades ou de á guas de enxurrada mal encaminhadas. Mas, tudo isso era resolvido com uns socos, e a coisa não passava disso mesmo. Numa coisa, os Cantos competiam entre si! Queriam todos ser considerados os mais trabalhadores; ter o estatuto de canto mais rico e de salvaguardar as  suas donzelas dos ataques dos rapazes dos outros cantos. A maioria da população era iletrada e desconfiava de qualquer peralta que não o fosse, a quem por norma chamavam pi-pi de tabela. Bom, de todos os Cantos, um havia, que "muito embora administrativamente" não pertencesse às Fazendas  era e ainda é considerado como Fazendas. Refiro-me ao Canto do Japão! O Canto do japão desenvolveu-se em torno de um estabelecimento comercial, que era a loja do João Caniço.  Nos idos anos de 1940 e 1950 era o Canto do Japão um conjunto de habitações dispersas, e chamado Canto do Japão, por analogia com os Japoneses, não porque os seus naturais tivessem qulquer semelhança ou  descendência rácica com os ditos Japoneses, mas tão somente pelo facto de serem aguerridos na defesa dos seu território contra a invasão de qualquer estranho; recorda-se, que por essa época (era o tempo da grande guerra) os Japoneses tinham a fama "e o proveito" de ser os guerreiros mais ferozes tendo atacado os Americanos nas suas próprias bases navais. Devido à sua ferocidade na defesa do seu Canto contra o ataque de invasores, (leia-se qualquer estranho que intentasse namorar uma das suas donzelas,) e também pelo pouco convívio com o pessoal dos outros cantos  foi o Canto baptizado de Canto do Japão. Salvo melhor opinião, esta é a versão mais coerente para o nome atribuído ao referido Canto.

E o canto do japão era de tal ordem  fechado a estranhos, que qualquer um que por ali aprecesse com intenções  (ou sem elas)de tomar parte num bailarico era concerteza  vitima da fúria defensiva dos rapazes lá do bairro. As histórias que então se contavam das ocorrências nos bailes do Canto do Japão eram tão pitorescas, que um conhecido poeta da nossa terra, num dia de feliz inspiração dedicou uns versos lá ao Canto do Japão. Mas antes de reproduzir os versos, terei de descrever mais uns quantos personagens que marcavam figura na nossa terra e que por isso mesmo, também são alegremente mencionados no poema.

Havia o Joaquim Sabino, cujo estabelecimento (não sei se já vinha do seu pai) era o polo do  Canto Negro. Este personagem era comerciante de sucesso e assíduo frequentador da missa aos Domingos. Mais tarde, talvez na tentativa de captar alguns clientes ao Joaquim Sabino abriu um outro estabelecimento de taberna e mercearia; era a loja do João Crospe, mas, vá lá saber-se porquê, esta loja nunca teve clientela passando apenas a fornecer apenas o próprio agregado familiar. Era portanto uma loja para gasto de casa.Havia um outro personagem que era alfaiate e  tinha a alcunha de borreco; este alfaiate tinha o seu atelier montado no bordo do poço, local onde sentado ao sol costurava; refira-se que o alfaiate tinha uma perna torta.

Não devo esquecer o Cabeçana, assim chamado pelo tamanho algo exagerado da sua cabeça; este personagem tinha duas características que o distinguiam dos demais: era imberbe, apesar dos seus sessenta e alguns anos, e nunca trabalhou. Havia ainda o Gabriel Decilitro, (assim chamado pelo seu tamanho, media à volta de 1,50 de altura)barbeiro de profissão, mas acumulava as funções de relojoeiro e dentista.  Havia o João Careca padeiro de profissão e pescador inveterado que tinha a particularidade de não ter filhos. Finalmente, havia o Gargola, homem que ficava furioso quando lhe falavam em bola ou outro desporto qualquer;vá lá saber-se porquê!

Bom, na posse de todos estes elementos, o João Mateus, homem  de verso fácil e crítica mordaz criou os versos seguintes:

 

Mas que grande catrabocada!

Vocês não ouviram dizer nada?

Rebentou a revolução,

lá no canto do Japão, 

Na loja do João Caniço

Anda um grande reboliço

E ali tudo desanda,

Chegou lá um Lisboeta

Apertaram com ele à galheta

Puseram-lhe a cara à banda.

 

Corre o Joaquim Sabino

À capela tocar o sino

Põe o povo em alvoroço

O joão Crospe fecha a porta       (vejam só os clientes que perdeu)

E o Borreco da perna torta

Catrapúz, cai dentro do poço.

 

Estava o Cabeçana a fazer a barba no Gabriel      (recorda-se que o Cabeçana era imberbe)

E nisto;... Diz!

Tou farto de trabalhar .................................................(nunca trabalhou)

Vou-me enforcar

com um cordel

 

Acudam que agarram o Gargola

Dentro do Campo da Bola........................................(impossivel)

E por certo haverá tareia

O João Careca ao ouvir isto

Pede a Jesus Cristo

Que livre os filhos da cadeia..................................................(impossivel)

 

Esta é mais uma história simples da gente simples cá do meu Burgo.

ETA

publicado por etario às 21:26
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