Domingo, 3 de Agosto de 2008

A BRIGA DO VIAJANTE

Nos idos anos de 1950, as Fazendas não eram a progressiva vila que hoje é; não passava então de alguns aglomerados  de casais  que formavam bairros ( a que nós davamos e ainda damos, o nome  de cantos). Claro que as ruas (hoje alcatroadas) não passavam de  trilhos ladeados de valados de terra que delimitavam as propriedades, e nalguns casos impediam a invasão das enchurradas no Inverno. Mas, uma coisa era certa; as Fazendas eram tidas como tendo o melhor vinho branco que se bebia e as suas gentes hospitaleiras.

Os bairros ( a partir de agora serão chamados cantos) rivalizavam entre si para ver quem tinha o melhor branco, as moças mais bonitas e o maior status de riqueza, muito embora, mesmo o mais rico entre eles continuasse a ser pobre.

O centro cívico de cada canto era a taberna normalmente contigua a uma mercearia e nalguns casos havia também a barbearia. Quando o canto tinha duas tabernas e mercearias, isso era simbolo de status social para os naturais desse canto já que, isso simbolizava poder económico.

 

A história que me proponho contar hoje foi parcialmente vivida e presenciada por este humilde escriba, numa época de meninice e trabalhador precoce (hoje seria chamada exploração de mão de obra infantil), pois desde menino que vendia copos de vinho e pesava quilos de arroz na taberna e mercearia de minha mãe, junto a cujo balcão nasci.

 

Como disse, as tabernas e mercearias eram o centro cívico dos cantos pois era aí que se sabiam as novidades da terra e se debatiam os problemas da agricultura, tudo acompanhado de uns copázios de branco , jogos de sueca e bisca lambida.; claro que, de quando em vêz, (especialmente ao sábado à noite) os ânimos ficavam mais exaltados e havia velhas questões de limites de propriedade ou conquista da mesma dama resolvidas a murro, mas, no outro dia tudo estava bem.

 

Para abastecer estas tabernas e mercearias  havia uma figura típica, que era o viajante.

O viajante era um  funcionário de um rmazém de mercearias (dos vários que havia em Santarém) que percorria as mercearias do lugar montado numa bicicleta de pedal em cujo quadro adaptava uma pasta de cabedal onde guardava as notas de encomenda, os livros de recibos e o dinheiro cobrado aos clientes. Não havia  (tal como hoje) assaltos, e estes vendedores chegavam a transportar quantias razoàveis de dinheiro.

Eram personagens que se vestiam de uma maneira mais formal, usando inclusivamente gravata o que lhes dava o direito, de em surdina, serem apelidados de pi-pis, já que,gravata

era coisa só usada em casamento e não era em todos;  (um dia ainda lhes conto uma história do fazedor de nós de gravata).

 

Apresentados os personagens , deixem-me descrever o  principal, ou seja: o Snr. Carlos; assim se chamava o viajante que é o centro da história.

O Snr Carlos (a partir de agora "o viajante") era um colosso com 2 metros de altura e o restante físico a condizer, que é como quem diz, um autêntico Hercules, mas em ponto grande. Recordo ainda, como me agarrava nos braços  me atirava ao ar (apesar dos meus desenvolvidos sete anos) e me voltava a segurar como se de uma pena se tratasse. Pois bem, o viajante era de uma simpatia e delicadeza excepcionais, sempre sorridente com todos, e um ar bonacheirão altamente cativante.

 

A história começa num dia pequeno e frio de meados de Outono (tempo de agua-pé nova) em que o viajante seguindo a sua rotina habitual começou a visitar clientes na entrada das Fazendas, tais como A Brasileira, o Augusto Brito, o Custódio Tomé e tantos outros e em todos provando a agua-pé e o vinho novo.

Quando chegou às lojas do canto de Nova Lisboa (de onde sou oriundo) o viajante já vinha bem carregado não deixando por isso de provar mais um branco do meu vizinho e concorrente, até porque, só lhe faltava fazer mais um cliente, (por sinal no canto mais complicado) no Canto do Costa.

Convém esclarecer desde já, que todos os cantos tinham os seus grupos de homens jovens e rapazes que formavam a guarda pretoriana do bairro, ou seja: quando houvesse confusão com alguém de fora do canto, era um por todos e todos por um , sendo o Canto do Costa o mais aguerrido.

 

Nesse dia, quando o viajante aportou ao Canto do Costa, já bem bebido, os rufiões lá do Canto pensaram em dar uma tareia ao pi-pi, pois andar ali um matulão de gravata era tido como provocação, logo, gravatistas não eram tolerados. E vai daí, encorajados pelo ar sorridente e calmo do viajante e pelo aspecto algo bebido e cambaleante reuniram-se 5 ou 6 e começaram a provocar o pi-pi.

Em má hora o fizeram, já que mesmo todos juntos, levaram uma monumental tareia, e quando pediram reforços a alguns que estavam em casa, a cena repetiu-se, ou seja: quantos vieram, quantos levaram porrada da grossa, pois cada murro daquela bizarma  arrumava o adversário. Não se pense que eram uns adversários quaisquer! Pontuavam ali brigões de certo estatuto como os Coelhos, o Caramelo Rato os Moreiras e outros que tais. Um deles, o  Felício, levou um directo que não se levantou mais. Diz-se que foi tamanha a colhida que preferiu apreciar deitado o tratamento que era dado aos outros.

 

Terminada a briga, cada um ficou a lamber as feridas e o viajante regressou a Santarém como se nada se tivesse passado. Sucede porém, que os do Canto do Costa não gostaram de ser sovados por um só elemento, e durante a semana reuniram reforços, contaram com a solidariedade de alguns elementos do Canto de Nova Lisboa,  e, agora com om grupo mais numeroso  esperaram o viajante na taberna da minha mãe para um acerto de contas. É claro que os que tinham levado mais na anterior refrega não se afoitaram muito, mas, os do Canto de Nova Lisboa nem lhe deram tempo a que desmontasse da bicicleta; derrubaram o colosso e todos juntos deram tamanha tareia ao viajante que o pobre ficou se m casaco, sem gravata, com a camisa toda rasgada e até a pasta com os recibos e o dinheiro andou em bolandas. (Nota: não faltou um tostão da cobrança nem tão pouco qualquer documento, já que, apanhamos todos os documentos e dinheiro que entretanto se havia espalhado).

 

Terminada a refrega, e enquanto o viajante se levantava com o corpo todo amassado, foi avisando: ainda me hão-de pagar pois quando vos encontrar, nem que sejam 5 ou 6 de cada vez eu acerto-lhes o paço. Nisto, um dos que tinha participado na briga receando novo confronto com o viajanter disse logo: tá a ouvir, olhe que eu só lhe dei um pontapé.

O viajante tranquilizou-o; eu bem vi quem é que me bateu, e você seu rebuçado(referia-se ao Caramelo) vai-me pagar a dobrar.

 

O viajante, para ser ressarcido dos prejuízos, (casaco, gravata e camisa) apresentou queixa na GNR de Almeirim contra os que lhe tinham armado a emboscada; dos doze nomes constantes figuravam um grande número de brigões do Canto do Costa e do Canto de Nova Lisboa .

No dia aprazado para comparecer perante o cabo da Guarda, lá estavam todos com cara de funeral, pois pagar uma camisa, um casaco, uma gravata e talvês ser engaiolado, não era uma perspectiva agradável.

Depois das identificações, o cabo da Guarda perguntou ao viajante: então Snr. Carlos, o que é que o Snr, quer que eu faça aos homens? O viajante reflectiu e disse: eu não quero saber do casaco nem da camisa ou da gravata, o que eu quero é, que o Snr feche comigo dentro de uma cela, dois de cada vêz. Perante tal possibilidade, o I Felício lembrando-se do coice que tinha levado na primeira refrega disse: o nosso cabo dá-me licença que sente, porque já me estão a passar coisas pela vista?.

 

O cabo da Guarda, que era homem sensato, lá arrumou a coisa com uma multa de 80$50 a cada um e  o caso ficou arrumado por ali.

 

Saíram todos aliviados do Posto da GNR por a coisa ter ficado melhor do que pensavam e foram todos comemorar para a taberna do Zé Carapinha e todas aquelas que encontraram no regresso a pé para as Fazendas.

 

Claro que, quando saíram da ultima taberna já era noite e todos de ranchada lá vieram em direcção às Fazendas. Como se disse de inicio, as ruas eram de terra batida e a estrada principal (assim era chamada a estrada de acesso das  Fazendas a Almeirim)  era de macadame. Por altura de onde era a fábrica do pó, um deles ficou para trás a urinar enquanto o grupo continuou a andar. Quando terminou de urinar, o homem começou a correr para alcançar  o grupo, só que, os outros ao ouvirem tamanha corrida deram o grito de alerta; fujam que vem aí o viajante. O medo que tinham do viajante era tal, que todos se dispersaram a correr em direcção às Fazendas, mas, não o fizeram pela estrada; fizeram-no por detrás dos casais que existiam a ladear a estrada, o que motivou ferozes perseguições por parte dos cães de guarda , misturados com alguns tiros de caçadeira dos donos dos casais.

 

Por volta das dez da noite, o grupo muito desfalcado  lá chegou à taberna do Canto de Nova Lisboa contando como tudo tinha acontecido, muito embora com algumas fanfarronadas à mistura e a promessa de que brigas com o viajante não haveria mais.

 

Conclusão: o viajante na semana seguinte regressou ao seu trabalho como se nada se tivesse passado, e creio que algumas semanas depois já se bebiam uns copos juntos.

 

Esta é uma história simples da gente simples cá do meu bairro (perdão; cá do meu canto).

publicado por etario às 23:17
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