Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

REACIONÁRIO

Chamem-me reaccionário se quiserem; não me importo! No fundo, seria um juízo de valor  com o qual convivo perfeitamente. Mas, verdade verdadinha, o que não tolero é o estado actual da Nação que foi o meu berço. E, como tenho o privilégio de ter visto jogar Eusébio e ouvido Amália [ambos ao vivo, como agora se diz], coloca-me numa posição em que posso  viajar entre os dois momentos, ou seja, antes e depois de 25 de abril de 1974.

 

Vivi o antes do 25 de Abril de 1974, numa idade onde era facil a adesão a influências contrárias ao sistema político instalado, ou seja, à ditadura dita fascista.

Por alturas da incorporação militar, já me questionava acerca da razão da existência da guerra no Ultramar Português. Apesar disso, e a leitura de livros [que clandestinamente circulavam pelas casernas],cujo conteúdo era um constante desafio à deserção do exército , não levaram a que deixasse de cumprir o meu dever militar, não obstante, ir tomando consciência da injusteza de tal guerra.

 

Não desertei; como não desertaram a maioria dos militares Portugueses. Ao invés, alguns outros desertaram por cobardia e autentica traição à Pátria, sendo poucos os que o fizeram por imperativo de consciência religiosa ou moral.

 

Aos primeiros voto o meu desprezo, e aos segundos a minha compreensão.

 

De qualquer modo, os jovens do meu tempo tinham já a consciência de que as coisas tinham de mudar, e de que tal mudança ocorreria por decurso do tempo, (dizia-se que o regime cairia de maduro), ou por revolução popular apoiada pelos militares.

Afinal, caiu por revolução militar apoiada  por populares.

 

Fosse como fosse, as levas maciças de emigrantes para França, o nível de vida que ostentavam passados um um ou dois anos,  a consciência política dos estudantes e de alguma classe operária, era o prenúncio de queda de um regime que cheirava a mofo e sem perspectivas de mudança.

 

 Acordei na manhã de 25 de Abril de 1974, e as notícias de queda do regime levaram a que saltasse de contente e feliz pela liberdade de expressão e promessas de futuro risonho com trabalho, pão, paz e liberdade.

 

Era então um jovem  a trabalhar por conta própria, com mulher e filho para sustentar e renda da casa a pagar. Não temi pelo futuro pois acreditei cegamente nas promessas do movimento das forças armadas. E, acreditei ainda mais nas promessas dos políticos de então e dos partidos políticos.

 

Mas, o decurso do tempo, a incúria, a ganância, a incompetência e o compadrio político minaram o sonho dos Portugueses. Antes não tínhamos liberdade de expressão, mas tínhamos a informação que importava e a que nos era dada pela BBC e Radio Moscovo; não tínhamos total direito à greve mas os sindicatos eram activos e defendiam na realidade os interesses dos trabalhadores. Hoje , defendem os interesses dos próprios sindicatos e dos partidos a que estão afectos.

 

Hoje, as greves são decretadas quase sempre em empresas públicas, sem o minimo respeito pelos interesses dos utentes. Aí, nessas empresas públicas, quase sempre dirigidas por um incompetente servidor do partido de governo, perante o decretar de uma greve, as respostas a esta, são analisadas em primeiro lugar pelos votos que se ganharão ou perderão se for tomada  determinada decisão.

E, como por norma as greves são de reivindicação salarial, o concelho de administração dessas empresas cede de imediato às exigências para que o partido não perca votos. É obvio, que se pelo dinheiro (tantas vezes desbaratado) se tivesse que responder em sede de auditoria isenta que responsabilizasse por gestão danosa da rés pública, haveria mais contenção nas cedências às exageradas exigências de alguins sindicatos.

 

O compadrio político, não terminou com o 25 de Abril; antes pelo contrário, passou a ser mais descarado e ostensivo.

Deixou de haver respeito pela coisa pública.

Desbaratam-se milhões em ordenados para os amigos e fieis seguidores.

Fazem-se acordos em que só alguns são descaradamente beneficiados, tudo de acordo com o tráfico de influências de políticos que no activo ou não, manobram os centros decisores.

 

A incúria e a incompetência na governança tem sido tal, que passamos  (no dizer de alguns, sempre os mesmos,) de País fascista, retrógado, e atrasado mas RESPEITADO POR MÉRITO PRÓPRIO, que nada pedia a ninguém, a Pais indigente de mãos estendidas, que já nem sequer soberania tem.

 

Não foi para assistir a isto, que eu e milhões de Portugueses saltamos de alegria na manhã de 25 de Abril de 1974.

 

Precisa-se que os militares dêem de novo um valente pontapé no traseiro destes anões da política, mas até lá, que sejam responsabilizados criminalmente os gangsters que fizeram da governação pública um desbaratar inútil daquilo que a todos pertence.

 

Nota: Estas linhas foram escritas antes da tomada de posse do actual governo. E, na esperança de que o sobredito não se lhe aplique, até prova em contrário, volto a acreditar na integridade e competência de alguns.

 

 

publicado por etario às 23:01
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2 comentários:
De Paulo Paz a 29 de Junho de 2011 às 16:14
Eu nasci no pós 25 de Abril por isso tenho a felicidade de nunca ter passado pelas dificuldades de viver em clima de guerra e na insegurança da reconstrução e da viagem de uma vida nova.
Acredito que uma revolução era necessária nesse tempo, mas lamento ver cada vez mais governo após governo tomarem-se decisões politicas cada vez mais populistas e menos moderadas.
2 exemplos de 2 medidas que são uma verdadeira incógnita, dependerá da maneira como serão aplicadas e fiscalizadas.
1.º Rescisão de contratos na função publica.
Embora pareça uma boa medida, poderá trazer consequências negativas se optar por fazer uma mera formula e depois quem quiser aceita as condições. Geralmente quem aceita são os mais competentes porque arranjam logo lugar num grande grupo privado (muitas vezes até a ganhar-se mais). É bom e espero que paralelamente à formula apareça as avaliações por desempenho e que barrem algumas destas saídas vitais para o regular funcionamento do estado.
2.º - Pagamento do IVA quando se recebe.
Embora seja bom para os proprietários de PME, na realidade esta medida está contra tudo o que o estado está neste momento a fazer, ou seja não adianta aumentar o IVA porque precisa de receita, se esta receita chegar mais tarde ao estado. A consequência será o atrasar ainda mais pagamentos. Penso que neste campo seria melhor equacionar bem como se vai fazer, porque pessoalmente preferia continuar a pagar o Iva à cabeça e a taxa reduzir-se para valores próximos da taxa de IVA Espanhola.
Mas são mesmo pontos de vista



De etario a 1 de Julho de 2011 às 01:37
Caro Paulo;
como sabe, a eficácia de uma medida é aferida pelo resultado da sua aplicabilidade. E, se a ineficácia da medida resultar da sua deficiente ou nula aplicabilidade, então haverá que sancionar aqueles que dificultam ou impedem essa aplicabilidade. Para tal, a sanção tem de ser dura e efectivamente aplicada, de nada resultando a dureza da sanção sem a correspondente aplicação.

Vem isto a propósito do seu ponto de vista quanto à ineficácia do aumento do valor do IVA se o pagamento for à posteriori.

Com o devido respeito pela sua opinião, entendo que o aumento do IVA é um erro crasso, que, só entendo pela necessidade imediata de realisar fundos.
É, a meu ver, injusta a cobrança antecipada de impostos; ao invés. creio que seria muito mais eficás a diminuição do IVA para valores que não fossem um convite à fuga, uma sanção pesada (efectivamente aplicada) desencorajadora de tais práticas e a possibilidade de dedução de todas as despesas no IRS.
Assim, haveria um aumento exponencial do IVA e do IRC pela extraordinário aumento do incremento da economia, e um aumento de receita do Estado, para além de uma justa distribuição do esforço de todos na recuperação económica do País. Mas, o imediatismo da necessidade impede a aplicabilidade destas e outras medidas.

Quanto à rescisão de contratos na função pública, subscrevo totalmente o seu ponpo de vista.


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