Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Processo de Bolonha

Antes de mais e dado que sou um Bolonhado, garanto que o comentário que se segue será uma análise isenta, desapaixonada  e ponderada sobre um tema que ultimamente tem dado origem aos mais diversos comentários, sobre os quais, este, abstractamente se reflexiona.

 

O tema em análise é precisamente o Ensino Universitário segundo o Processo de Bolonha; processo este que, confere a licenciatura aos que passados três anos de frequência de aulas na Universidade, obtêm no final de cada semestre classificação positiva em todas as disciplinas. Quer dizer, se o aluno é aplicado e cumpre os critérios de exigência [da Universidade/Faculdade] do curso a que se candidatou, obtém ao mfim de três anos o que antes só era possivel ao fim de cinco.

 

Isto, claro está, criou cisões entre os professores que apoiam e os que contraditam o Processo de Bolonha. Naturalmente, que uns e outros terão a sua dose de razão, mas, o cerne da questão prende-se com a alegada falta de qualidade técnica dos recem formados através do Processo de Bolonha, levando a que as ordens profissionais que tutelam o acesso às correspondentes profissões, vetem a admissão nas correspondentes Ordens aos  formados pelo Processo de Bolonha.

 

 Este veto de acesso às Ordens Profissionais teve o seu expoente mais mediático na exigência de um exame de acesso à Ordem dos Advogados, que, como é consabido veio a ser declarado ilegal em todas as Instâncias, mormente no Tribunal Constitucional.

 

Chegados aqui, importa colocar as seguintes questões: a) terão a razão total os professores que contraditam o Processo de Bolonha?, b) terão igualmente razão os que o defendem ? , c) estarão mais mal preparados os licenciados de três anos que os de cinco?, finalmente, as Ordens Profissionais [especialmente a Ordem dos Advogados] ao exigirem um exame de acesso estarão a agir na prossecução do interesse público, ou na defesa dos profissionais já instalados ?.

 

As respostas a estas questões serão naturalmente sumárias, pois que, um desenvolvimento mais profundo implicaria um volume de páginas incompativel com este comentário.

 

Na tentativa de resposta à questão a) haverá que dizer que a maioria dos   Professores que contestam o Processo de Bolonha pertencem a um extracto etário que tem alguma dificuldade em assimilar mudanças. Contudo, estes Professores têm um saber [de experiência feito]  para além do académico que lhes confere autoridade para serenamente aquilatar dos defeitos e virtudes dos processos de ensino que podem levar ao facilitismo.

E, o Processo de Bolonha transferindo em maioria para o estudante a investigação cientifica da área proposta para estudo, poderá levar por desonestidade intelectual do aluno ao facilitismo (vulgo plágio).

Outros haverá que,   mercê da tutela (diga-se correcção) dos trabalhos do aluno vejam muito mais aumentado o seu volume de trabalho, e, em boa verdade, só por isso contestam o Processo de Bolonha.

 

Na questão b), encontramos os Professores mais jovens de idade e espírito, abertos à inovação e à descoberta, não raras vezes verificando que  tutelando e influenciando o aluno no sentido da pesquisa honesta e genuína se obtêm resultados surpreendentemente positivos. Estes Professores são por norma  exigentes e rigorosos nos métodos de avaliação.

Contudo, aceitam por vezes, que o aluno se subtraia ao estudo da chamada matéria de pouco ou nulo interesse em proveito de outras mais consentâneas com a prática daquilo que se pretende.

 

A questão c), é (no respeito por opinião diferente) a mais fácil de responder; ou seja, se um aluno do curso de cinco anos tendo mais tempo para  estudar as mesmas cadeiras (ou disciplinas) que o aluno do curso de três , obvio se torna que tem por obrigação estar melhor preparado. Mas, será assim? A resposta agora não é fácil! É que, no Processo de Bolonha o aluno investiga por conta própria as disciplinas, e a sua apreensão destas tem por base o contacto directo com as fontes donde emanam esses conhecimentos, sendo corrigido ou tutelado pelo Professor nas dúvidas que lhe subsistam. É pois, um conhecimento adquirido por experiência e não pelo vulgar empinanço . A matéria em estudo, mercê dessa investigação, é naturalmente concentrada no essencial, sendo o acessório tratado como tal.

 

Claro que as disciplinas nucleares dos cursos têm o mesmo tratamento no curso de três como no de cinco anos.

 

É pois minha convicção (sempre no respeito por opinião diversa) que a preparação dos alunos de três ou cinco anos tem como base dois factores fundamentais: 1º- A preparação pré Universitária, a honestidade intelectual do aluno e a sua motivação para o curso.

                        2º- A capacidade dos Professores em transmitir conhecimentos e o rigor na feitura e classificação dos testes de avaliação.

 

Respeitados estes critérios, quer num ou noutro método não se antevê que o aluno de cinco anos esteja no essencial melhor preparado que o de três.

 

Finalmente, na resposta à questão c), refira-se que as Ordens Profissionais ao exigirem um exame de admissão às respectivas Ordens aos licenciados pelo Processo de Bolonha, estarão a passar um atestado de incompetência às Universidades que os preparam.

Todavia, (mais uma vez no respeito por opinião diversa) respondendo no que concerne ao curso de Direito, [que é a minha area de formação] , por se tratar de uma área em que os futuros profissionais lidarão com os direitos objectivos e subjectivos dos cidadãos convirá que, os ditos futuros profissionais estejam na verdade bem preparados e, diga-se em abono da verdade, uma boa parte não está. Não está agora, nem estava antes do Processo de Bolonha.

 

Mas, o problema não se resume aos licenciados pelo Processo de Bolonha; o problema é transversal aos licenciados de três e de cinco anos.

Quer dizer, um mau aluno de cinco anos não será melhor que um mau aluno de três, de igual modo, uma boa licenciatura de cinco anos não será necessariamente melhor que uma boa de três .

 

Para reforço do que afirmo, sempre direi que no meu último ano de curso, a turma era composta por alunos do Processo de Bolonha e dos que haviam transitado do curso de cinco anos para o Processo de Bolonha, não se vislumbrando nestes melhor preparação do que naqueles, sendo o  melhor classificado no curso de Direito um aluno do Processo de Bolonha. Esta realidade, voltou a ser confirmada já durante o estágio profissional na Ordem dos Advogados, pois que, a boa preparação ou impreparação dos candidatos a advogado era comum aos licenciados de cinco e de três anos.

 

Tem pois alguma razão a Ordem dos Advogados quando pretende exigir um exame de acesso ao estágio nesta Ordem, mas, dado que lhe assiste a possibilidade de ao longos do estágio seçeccionar os candidatos que estarão aptos a receber a cédula profissional de advogado, tal razão fica diminuida e, levará à suspeição de que conjuntamente com essa razão, existirá uma protecção  corporativista e uma discriminação de caracter negativo imposta aos licenciados pelo Processo de Bolonha.

 

Aliás, esta foi a conclusão a que chegaram todas as Instâncias  Judiciais a que o Snr Batonário da Ordem dos Advogados recorreu.

 

 

 

Nota final: Por um lado, a impreparação de uma boa parte dos licenciados em Portugal, prende-se com a natureza economicista das Universidades Privadas, não rejeitando a admissão a qualquer aluno, desde que pague propinas. Obviamente, que sempre existem as excepções que confirmam a regra.

 

Por outro, a necessidade dos Governos em demonstrar nas estatísticas que somos um País de licenciados, levando a que por desígnios políticos se baixem os critérios de admissão à Universidade Pública e se permita a sua frequência por alunos que mal  sabem interpretar um texto em Português.

publicado por etario às 19:19
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2 comentários:
De Paulo Paz a 21 de Janeiro de 2011 às 13:00
Eu penso que como todos os processos de revisão existem coisas boas e coisas menos boas.
É certo que as Universidades mudaram, originado pela necessidade de readaptarem o seu ensino por forma a responder às necessidades dos alunos e do mercado de trabalho.
A grave crise financeira que afecta as Universidades (especialmente as do interior), são uma realidade de à muitos anos a esta parte. A forma de ultrapassar o problema foi criação de novos cursos, atractivos essencialmente para os estudantes da região.
A redução de custos implicou a custos reestruturações dos quadros docentes, o que nem sempre terá beneficiado o ensino.
A concorrência dos Institutos Politécnicos foi uma realidade que as Universidades tiveram de lidar e que acabaram por concluir que a melhor solução seria construir uma rede de parcerias (Por Exemplo existe uma parceria entre a Universidade de Évora e o Instituto Politécnico de Santarém).
Não nos podemos esquecer das alterações ocorridas na base dos alunos do secundário e novos candidatos a novas vagas na universidade. Como o ensino secundário passou a ser obrigatório até ao 12 ano, pareceu-me que os seus níveis de Exigência também foram modificados, sendo actualmente menos exigentes.
Os alunos procuram universidades e ensinos próximos dos seus agregados familiares.
O meio Académico e o Espírito de entreajuda modificou-se, o facto de ter estudado a 400 km de distância de casa fez com que me adaptasse a um conjunto de colegas e pessoas que também estudavam longe de casa, hoje em dia a realidade simplesmente mudou.
O facto de Bolonha permitir que o ensino a nível Europeu se uniformizasse trouxe mais valias, por forma a que os cursos sejam equiparados a nível Europeu.
Na altura em que ousei fazer um programa Erasmus a nota máxima que eu podia tirar era um 16 (mesmo que tivesse tido a nota máxima de 20 numa disciplina) Neste aspecto os melhores alunos no estrangeiro eram os portugueses e os franceses (por coincidência tinham estruturas de ensino idênticas e eram sempre considerados pelos professores estrangeiros os mais exigentes ao nível do conhecimento)
A introdução de Aulas na Universidade em Inglês, não sendo propriamente uma novidade nas melhores universidades do país, é um facto que no mundo profissional de hoje em dia a compreensão do Inglês é fundamental para se conseguir atingir melhores empregos.
O Inglês é a língua que está a unir o mundo (principalmente o mundo económico, por exemplo os grandes cargos das grandes empresas portuguesas têm nomes ingleses – CEO , Markting Director, Personal Assistence , etc )
O mudo de trabalho hoje em dia aceita tanto os estudantes do modelo antigo como do novo sistema de Bolonha. Independentemente de terem estudado 3 a 5 anos o importante do Estudante é que demonstre uma grande curiosidade profissional pelos conhecimentos científicos que adquiriu durante a universidade.
Se for empenhado, determinado, conhecedor e inteligente em suma um curioso profissional tem as características certas para brilhar no mundo do trabalho, resolvendo dia a dia as questões que lhe são colocadas.
Por princípio defendo que as Ordens profissionais devem fazer exames / testes aos seus associados. No entanto estes exames / testes devem ser precedidos de secções de esclarecimento sobre os assuntos que mais podem dividir os profissionais (no caso dos gestores/economistas/contabilistas é o Novo Plano de Contas)
Estes devem ser praticados por todos, por forma a que quem esteja à mais tempo no mundo de trabalho possa estar actualizado e quem entre de novo possa o mais rapidamente possível estão tecnicamente tão bem preparado como os mais experientes.
Em suma: Cada universidade tem os seus níveis de exigência, têm como função ensinar aos alunos conhecimentos científicos para eles estarem preparados para iniciarem a vida profissional, no entanto cabe a cada um desenvolver o seu conhecimento profissional da melhor forma possível. (A Universidade pode ensinar as pessoas a andar, mas cada um sabe como deve andar e qual o caminho a seguir)
Paulo Paz


De etario a 21 de Janeiro de 2011 às 17:22
Assim é de facto, amigo Paulo.
Contudo, permito-me reforçar o seguinte: só uma vontade de obter conhecimento levará à pesquisa deste de modo sério. E, o rigor desta seriedade deverá ter como exemplo o rigor da Instituição que o fornece, quer seja pelo método de Bolonha ou outro. >Como dizes, e bem, munido de uma boa dose de conhecimento teórico e outra tanta de curiosidade profissional o aluno a atingirá os objectivos que se propõe. No resto, funcionará a lógica da oferta e da procura, com as necessárias limitações.


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